Beleza

 
 

 Bronzeado alaranjado perde força na Europa e vira sinônimo de pobreza
19 de agosto de 2010 20h11

Comentários
 
bronzeamento, Paris, interna. Foto: Lúcia Müzell/Especial para Terra

A moda europeia agora é ganhar apenas um "coradinho", nada mais de horas de exposição ao sol
Foto: Lúcia Müzell/Especial para Terra

A ditadura do corpo dourado até os limites da boa saúde está com os dias contados, no que depender da elite europeia. Em pleno auge do verão no Velho Continente, uma consultoria francesa de tendências anunciou uma pesquisa, segundo a qual os europeus de classe alta estão cada vez menos apegados ao bronzeado em excesso, que passou a ser ligado à pobreza e à ignorância em relação aos perigos da exposição exagerada aos raios.

» Siga Vida e Estilo no Twitter
» vc repórter: mande fotos
e notícias

» Chat: tecle sobre o assunto

Tradicionais apaixonados por praia - cuja frequencia era associada a status social, no passado -, os ricos agora chegam inclusive a preferir fugir da beira-mar nos horários críticos de irradiação solar. Ao invés de ficarem torrando na areia entre às 11 e 16horas, vão repousar à sombra após o almoço ou então participar de outras atividades como compras nas butiques da cidade ou ir à exposições ou cursos de verão. O objetivo é manter a pele corada apenas o suficiente para deixar marquinhas discretas de biquini para provar que eles continuam tendo acesso ao luxo em visitar destinos paradisíacos nas férias de verão.

"O bronzeamento exagerado virou sinônimo de vulgaridade, até porque a ida às praias se popularizou e hoje não é mais sinal de superioridade econômica", explica Vincent Grégoire, diretor de estilo de vida na consultoria Nelly Rodi, responsável pela pesquisa. Sendo assim, as marcas do sol não são mais necessariamente uma - lembrancinha - herdada das belas férias à beira-mar. Os ricos têm rejeitado cada vez mais aquela pele caramelizada, comum e até obrigatória nas décadas passadas."

Sociólogos confirmam a tendência pela diminuição da exposição ao sol nos últimos anos. Além de terem percebido que o bronzeamento não é mais uma distinção social das classes inferiores, agora os ricos querem também se diferenciar dos imigrantes não europeus, que normalmente têm a pele mais morena. "E essa necessidade de distinção se verifica não apenas em relação ao imigrante pobre, mas também sobre os imigrantes que também pertencem às elites dos seus países, especialmente a árabe, e que frequentam as mesmas praias badaladas que os franceses", afirma Bernard Andrieu, filósofo do corpo e das práticas corporais da Universidade de Nancy, na França.

Andrieu observa que, por trás destas motivações racistas e elitistas sobre o assunto, os ricos também desenvolveram uma preocupação acentuada com os riscos de doenças causadas pelo excesso de sol, como o câncer de pele. Ele lembra que as primeiras campanhas alertando sobre os efeitos nocivos dos raios UV foram publicadas pelas mesmas revistas femininas que lançaram a moda do bronzeado nos anos 20, na época reservadas para as leitoras da classe A, e que até hoje mantém preços elevados para as classes inferiores. Naquele tempo, o bronzeado era visto como uma marca da emancipação feminina, já que as mulheres conquistavam o direito de expor mais o corpo nas praias. A expressão "banho de sol" surgia pela primeira vez, indicado pelos médicos para combater enfermidades e mesmo para curar a tuberculose.

Com o avanço das pesquisas e as descobertas sobre o lado maligno dos raios UV, mais uma vez foram as elites que tiveram primeiro acesso às novidades. Hoje, a informação é difundida para todos, mas, por questões financeiras, as camadas menos favorecidas não conseguem priorizar a proteção solar no orçamento familiar. "Neste aspecto, vemos mais uma vez o caráter elitista que pode ser dado ao bronzeado", constata o especialista. "Ter acesso a uma boa proteção solar não é para qualquer um. Conseguir escolher qual é o tom que se quer da pele é um luxo caro, porque os pobres, quando compram protetor solar, preferem os mais baratos, que muitas vezes não funcionam bem", diz Andrieu.

O culto à juventude e o medo do envelhecimento atuam como protagonistas nesta mudança de comportamento, já que nenhum creme, por mais luxuoso que seja, ainda não consegue reverter os efeitos nocivos de anos de exposição solar. O estudioso não acredita que a sociedade voltará a exaltar a pele pálida que dominava os rostos das elites nos séculos passados, mas destaca uma tendência crescente por um retorno ao natural, estimulada pela onda ecologicamente correta. Ele lembra que, nos anos 70 e 80, os punks e os góticos foram a antítese da ditadura do bronzeado, mas não conseguiram se sobrepor aos apaixonados pelo sol. Agora, quem poderá exercer este papel são os ecologistas. "Uma coisa que poderá acontecer é de serem criadas novas técnicas alternativas para manter a pele na cor que ela é, para garantir sempre um aspecto mais natural possível."

Especial para Terra